Inflação cai, mas o crédito não fica mais barato? Entenda o que os números da economia indicam
Entenda por que, apesar da inflação desacelerar, os juros altos da Selic mantêm o crédito caro e como isso impacta seu bolso na hora de financiar.

Você liga a TV e ouve no noticiário: “inflação dá sinais de melhora”. Animado, decide que é hora de trocar de carro ou financiar aquela geladeira nova. Ao chegar na loja e fazer a simulação, vem o susto: os juros continuam altos e a parcela mal cabe no bolso.
A frustração é imediata e a pergunta é inevitável: se os preços estão subindo menos, por que o custo do dinheiro para comprar a prazo não acompanha essa melhora? A resposta está em quatro outros indicadores-chave da economia que, juntos, explicam por que o seu crédito continua caro.
Inflação mais baixa não é sinônimo de preços em queda
As projeções mais recentes do Relatório Focus do Banco Central, que reúne as expectativas dos principais analistas do mercado, apontam para uma inflação medida pelo IPCA de 4,02% para o ano de 2026. Outro índice importante, o IGP-M, tem uma expectativa de 3,92%.
Na prática, isso significa que os economistas esperam que os preços continuem subindo, mas num ritmo mais lento do que em períodos anteriores. No dia a dia, o impacto é que seu poder de compra diminui menos do que antes, mas o custo de vida ainda aumenta. Essa desaceleração é uma notícia positiva, mas ela, sozinha, não é suficiente para baratear o crédito ao consumidor.
Selic a 12,25%: O verdadeiro ‘vilão’ do seu financiamento
Aqui está o ponto principal da questão. Enquanto a inflação projetada é de 4,02%, a expectativa para a taxa Selic ao final de 2026 é de 12,25% ao ano, projeção que se mantém estável há quatro semanas, indicando um forte consenso no mercado. A Selic é a taxa básica de juros da economia brasileira e funciona como a referência para todas as outras taxas, incluindo as que você paga em um empréstimo ou financiamento.
A enorme diferença entre a Selic (12,25%) e a inflação (4,02%) é o que realmente importa. Essa distância de mais de 8 pontos percentuais é o chamado “juro real”, um dos mais altos do mundo. Ele é a principal ferramenta do Banco Central para desestimular o consumo e atrair capital estrangeiro, segurando a inflação.
Imagine que a Selic é o “custo base” do dinheiro para os bancos. Se esse custo para eles é de 12,25%, eles sempre vão emprestar para você por um valor acima disso. Essa diferença entre o custo de captação do banco e o que ele cobra do cliente final é o chamado spread bancário.
Ele inclui o risco de inadimplência, custos administrativos e o lucro da instituição. Portanto, o que define o preço do seu financiamento é muito mais a Selic do que a inflação do mês.
Mas por que o Banco Central se sente obrigado a manter essa taxa tão alta? Um dos principais suspeitos está no seu bolso e no preço dos importados: o dólar.
Dólar a R$ 5,50: A pressão que ajuda a manter os juros nas alturas
Outro número que influencia o cenário é a projeção para a taxa de câmbio, que aponta para R$ 5,50 por dólar no final de 2026. Um dólar nesse patamar, mesmo que estável, tem um impacto direto nos preços de muitos produtos no Brasil, desde o pãozinho (cujo trigo é importado) até os eletrônicos.
Esse risco de aumento de custos por causa do dólar é um dos fatores que levam o Banco Central a manter a Selic em um nível elevado. A taxa de juros alta funciona como uma medida de segurança para controlar a inflação e evitar que uma eventual alta do dólar contamine os preços de forma generalizada.
É um impacto indireto, mas que ajuda a justificar por que os juros não caem na mesma velocidade que a inflação.
PIB de 1,80%: Uma economia a ‘meio-gás’ que encarece o crédito
A projeção de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) para 2026 é de 1,80%, um número que se mantém estável há seis semanas. Esse dado aponta para um crescimento modesto da economia. Em um cenário como esse, as pessoas e as empresas tendem a ser mais cautelosas para pegar empréstimos e fazer grandes investimentos.
Para os bancos, uma economia que cresce pouco também aumenta a percepção de risco de inadimplência, o que serve como mais um argumento para manter as taxas de juros dos financiamentos em patamares elevados.
O que o conjunto dos números sugere?
Juntando as peças, os dados pintam o retrato de uma economia em um dilema. Para domar uma inflação persistente e se proteger de um dólar valorizado (R$ 5,50), a autoridade monetária mantém a “trava” dos juros em um nível altíssimo (Selic de 12,25%).
O efeito colateral, no entanto, é um freio no crescimento econômico (PIB de 1,80%), que por sua vez aumenta a cautela de consumidores e bancos. O resultado é o cenário que o consumidor sente no bolso: crédito caro e escasso, pois a prioridade é a estabilidade, não a expansão.
Conclusão: O que esperar na hora de pedir crédito?
Voltando à situação inicial, a análise das expectativas de mercado mostra que o custo de um empréstimo ou financiamento depende muito mais da taxa Selic do que da variação da inflação que você vê no supermercado.
Com base nas projeções atuais, enquanto o cenário econômico geral apontar para a necessidade de juros básicos altos para controlar riscos, o brasileiro não deve esperar uma redução significativa no custo das parcelas.
É importante lembrar que esta é uma análise do cenário projetado pelos analistas, e a economia pode sempre tomar rumos inesperados.
Fonte: Banco Central do Brasil – Relatório Focus (Expectativas de Mercado). Análise baseada na edição de [Janeiro/2026], que reúne projeções de inflação, juros, câmbio e crescimento econômico.

