Publicidade de bets: o que pode mudar no Brasil
Congresso discute novas limitações aos anúncios de apostas em meio a preocupações com endividamento e saúde financeira.
A publicidade das plataformas de apostas on-line, popularmente conhecidas como bets, voltou ao centro do debate público no Brasil.
Em 8 de julho de 2026, especialistas, profissionais da saúde, representantes do governo e do setor participaram de uma audiência na Comissão do Esporte da Câmara dos Deputados para discutir os impactos da presença constante desses anúncios em transmissões esportivas, redes sociais e outros canais de comunicação.
Entre as principais preocupações estão a normalização das apostas, o estímulo ao jogo impulsivo e os possíveis efeitos sobre o orçamento e o endividamento das famílias.
Representantes do Ministério da Fazenda também reforçaram que as normas atuais já proíbem anúncios que apresentem as apostas como forma de enriquecimento, recuperação de perdas ou solução para dívidas.
Isso não significa que toda publicidade de bets tenha sido proibida no país. Existem restrições em vigor e diferentes projetos no Congresso propondo limitações mais amplas.
Algumas propostas ainda estão em tramitação e, portanto, não devem ser apresentadas como regras definitivas.
Para o consumidor, o principal ponto é compreender que aposta não é investimento, renda complementar ou alternativa para pagar contas. Trata-se de uma atividade baseada em probabilidades, na qual perder dinheiro é uma possibilidade constante.
O que aconteceu?
No dia 8 de julho de 2026, a Comissão do Esporte da Câmara realizou uma audiência pública para discutir os impactos das apostas on-line. Os participantes demonstraram preocupação com a quantidade de anúncios associados principalmente ao futebol e às redes sociais.
Durante o encontro, foram defendidas restrições semelhantes às que existem para produtos considerados prejudiciais à saúde. Também foi discutida a possibilidade de substituir campanhas de estímulo ao jogo por comunicações educativas sobre riscos, limites e prevenção.
O secretário-adjunto de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda, Fabio Macorin, informou que as normas vigentes já proíbem mensagens que pressionem o usuário a apostar imediatamente. Também não é permitido apresentar o jogo como solução financeira, prometer enriquecimento, sugerir recuperação garantida de perdas ou associar apostas ao pagamento de dívidas.
Além das regras existentes, tramitam projetos que propõem medidas mais rigorosas.
Um deles é o Projeto de Lei 1.212/2025, citado durante a audiência da Câmara, que pretende proibir propagandas e divulgações relacionadas a apostas esportivas e jogos eletrônicos de azar.
No Senado, o Projeto de Lei 3.563/2024 pretende vedar publicidade, patrocínio e promoção de apostas esportivas e jogos on-line. A proposta foi aprovada pela Comissão de Ciência e Tecnologia em 4 de fevereiro de 2026 e, em 12 de julho de 2026, continuava em tramitação na Comissão de Constituição e Justiça. Portanto, ainda não se tratava de uma proibição nacional definitiva.
Por que esse assunto está em alta?
A publicidade das bets ganhou grande visibilidade em campeonatos esportivos, uniformes, transmissões, programas de entretenimento e conteúdos publicados por influenciadores.
Essa exposição repetida pode passar a impressão de que apostar é uma atividade comum, de baixo risco ou comparável a uma forma de investimento. Esse é justamente um dos pontos contestados por especialistas ouvidos na Câmara.
O debate também cresceu porque os possíveis prejuízos não ficam limitados ao valor perdido pelo apostador. O problema pode alcançar o orçamento familiar, o pagamento de contas, os relacionamentos e a saúde mental.
A Agência Brasil também publicou, em junho de 2026, conteúdo destacando como a paixão pelo futebol aumenta a exposição da população à publicidade de bets, a partir de alerta do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor.
Como isso pode afetar seu bolso?
O primeiro efeito possível é o aumento de gastos não planejados.
Anúncios frequentes, bônus promocionais, notificações e mensagens de urgência podem levar o consumidor a realizar apostas que não estavam previstas no orçamento. Valores aparentemente pequenos podem se acumular quando as operações são repetidas durante o mês.
Outro risco é a tentativa de recuperar perdas. Depois de perder determinado valor, a pessoa pode apostar novamente acreditando que a próxima operação compensará o prejuízo anterior. O Ministério da Fazenda identifica a tentativa de recuperar perdas como um dos sinais associados ao jogo problemático.
Também pode ocorrer o uso de recursos destinados a despesas essenciais. Dinheiro reservado para alimentação, aluguel, transporte, energia ou pagamento de parcelas não deveria ser utilizado em apostas.
O problema se torna ainda mais sério quando a pessoa recorre ao cartão de crédito, cheque especial, empréstimos ou dinheiro de terceiros para continuar jogando. Nesse cenário, além da perda nas apostas, podem surgir juros, multas e novas dívidas.
As novas restrições discutidas no Congresso procuram reduzir mensagens que apresentem esse comportamento como seguro, normal ou financeiramente vantajoso. Ainda assim, nenhuma regra substitui o controle individual do orçamento e a análise consciente dos riscos.
Quem pode ser mais afetado?
As pessoas que já enfrentam dificuldades para equilibrar receitas e despesas estão entre as mais vulneráveis.
Famílias endividadas podem ser atraídas por mensagens que criem uma expectativa irreal de recuperar dinheiro rapidamente. Pessoas negativadas ou com contas atrasadas também podem enxergar a aposta como uma saída emergencial, embora ela não ofereça garantia de retorno.
Jovens adultos e consumidores que acompanham esportes com frequência estão especialmente expostos à publicidade. A presença de anúncios durante partidas e conteúdos esportivos pode aproximar o ato de apostar da experiência de torcer.
Autônomos, MEIs e trabalhadores com renda variável também precisam ter atenção redobrada. Quando a renda muda de um mês para outro, perder parte do dinheiro reservado para despesas pessoais ou profissionais pode comprometer todo o planejamento financeiro.
O ponto central não é a profissão ou a origem da renda, mas a combinação de exposição frequente, dificuldade de controle e uso de valores necessários para outras finalidades.
Exemplo prático
Considere uma pessoa com renda líquida mensal de R$ 2.800.
Depois de assistir a diversos anúncios durante partidas de futebol, ela começa fazendo uma aposta de R$ 20. Após perder, realiza outra de R$ 30 para tentar recuperar o valor. Ao longo do mês, repete esse comportamento várias vezes e termina gastando R$ 350.
Os números são apenas ilustrativos.
Esses R$ 350 representam 12,5% da renda mensal dessa pessoa. O valor poderia estar reservado para alimentação, transporte, energia, medicamentos ou formação de uma reserva financeira.
Caso ela use o cartão de crédito ou o limite da conta para continuar apostando, o prejuízo pode aumentar com a incidência de juros. A aposta inicial deixa de ser apenas um gasto de entretenimento e passa a afetar compromissos futuros.
O que o consumidor deve observar?
O primeiro cuidado é verificar se a empresa está autorizada a operar no Brasil. De acordo com o Ministério da Fazenda, as plataformas autorizadas em âmbito federal utilizam endereço eletrônico terminado em “.bet.br”. O órgão também mantém uma lista oficial das empresas autorizadas.
É importante observar a linguagem do anúncio. Desconfie de conteúdos que relacionem apostas a:
- solução de problemas financeiros;
- pagamento de dívidas;
- enriquecimento rápido;
- renda complementar previsível;
- recuperação garantida de perdas;
- sucesso pessoal ou ascensão social;
- urgência para depositar ou apostar.
O consumidor também deve verificar se a plataforma oferece ferramentas de limitação de depósitos, controle do tempo e autoexclusão. As regras do Ministério da Fazenda exigem mecanismos de proteção e alertas sobre tempo e valores gastos.
Guardar comprovantes de depósitos e retiradas também é recomendável. Em caso de problema, esses documentos podem ser importantes para registrar uma reclamação.
Cuidados antes de tomar uma decisão
Não tome decisões financeiras influenciado apenas por uma campanha publicitária, pelo resultado obtido por outra pessoa ou por uma sequência de vídeos nas redes sociais.
Ganhos apresentados em anúncios não mostram necessariamente as perdas acumuladas pelo usuário. Além disso, resultados passados não garantem resultados futuros.
Nunca utilize empréstimos, cartão de crédito, cheque especial ou dinheiro destinado a despesas básicas para apostar. O custo da dívida pode permanecer por meses, mesmo depois de o valor apostado ter sido perdido.
Também não entregue CPF, senha, código de autenticação ou acesso à conta bancária a terceiros. Não permita que outra pessoa crie ou utilize uma conta de apostas em seu nome. O Ministério da Fazenda orienta expressamente que os usuários não emprestem dados pessoais nem cedam suas contas.
Outro cuidado é não confundir uma eventual restrição de publicidade com a eliminação completa dos riscos. Mesmo com anúncios reduzidos ou mais educativos, as apostas continuam envolvendo a possibilidade de perda.
O que fazer agora?
- Some quanto foi gasto com apostas nos últimos 30, 60 e 90 dias.
- Compare o total com sua renda líquida e com as contas essenciais.
- Interrompa imediatamente o uso de crédito ou dinheiro emprestado para apostar.
- Defina limites de depósito e tempo dentro da plataforma.
- Utilize a autoexclusão quando estiver com dificuldade para controlar o comportamento.
- Verifique se a plataforma aparece na lista do Ministério da Fazenda.
- Desative notificações e conteúdos promocionais que estimulem decisões impulsivas.
- Converse com familiares quando o gasto estiver sendo escondido ou afetando as contas da casa.
- Procure atendimento de saúde quando houver perda de controle, ansiedade, irritação ou tentativa insistente de recuperar valores.
A Rede de Atenção Psicossocial do Sistema Único de Saúde pode oferecer assistência a pessoas que enfrentam problemas relacionados ao jogo. O Ministério da Fazenda também disponibiliza orientações e referências de apoio em sua página de jogo responsável.
Conclusão
O debate sobre novas restrições à publicidade das bets tem relação direta com a proteção do consumidor, o endividamento e o orçamento familiar.
Já existem normas que impedem anúncios de apresentar apostas como solução financeira, forma de enriquecimento ou maneira garantida de recuperar perdas. Ao mesmo tempo, projetos no Congresso discutem limitações mais amplas, incluindo a possibilidade de proibir publicidade e patrocínios.
Até que essas propostas concluam sua tramitação, é importante diferenciar regras vigentes de projetos ainda em análise.
Para o consumidor, a orientação permanece clara: apostas não devem ser tratadas como investimento, renda ou saída para dívidas. Proteger o orçamento depende de reconhecer os riscos, estabelecer limites e buscar ajuda quando houver perda de controle.
Perguntas frequentes
A publicidade de bets foi proibida no Brasil?
Não. Existem restrições em vigor, mas uma proibição nacional e completa ainda depende da aprovação de projetos que tramitam no Congresso.
O que os anúncios de apostas não podem prometer?
Eles não podem apresentar apostas como solução financeira, prometer enriquecimento, sugerir recuperação garantida de perdas ou associar o jogo ao pagamento de dívidas.
O projeto do Senado já está valendo?
Não. O PL 3.563/2024 continua em tramitação e, em 12 de julho de 2026, estava sob análise da Comissão de Constituição e Justiça do Senado.
Como saber se uma bet está autorizada?
As empresas autorizadas em âmbito federal operam em endereços terminados em “.bet.br” e podem ser consultadas na lista do Ministério da Fazenda.
Posso usar apostas para complementar minha renda?
Não é recomendável. Apostas são atividades baseadas em probabilidade e não oferecem renda previsível ou retorno garantido.
É seguro pegar empréstimo para apostar?
Não. Além do risco de perder o valor apostado, você terá de pagar o empréstimo e seus encargos.
O que é autoexclusão?
É um mecanismo que permite ao usuário bloquear temporária ou definitivamente seu acesso às apostas. As plataformas autorizadas devem disponibilizar recursos de controle e autoexclusão.
Onde procurar ajuda?
É possível buscar atendimento na Rede de Atenção Psicossocial do SUS e nos serviços de saúde do município.


